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"A gente é rico?" e outras duas perguntas que travam todo pai

Elas chegam sem aviso, geralmente no carro ou na fila do mercado. E a resposta que a gente dá no susto é quase sempre a que ensina a coisa errada.

ICF 13 · Conversas em casa · · 8 min de leitura

Elas nunca chegam num momento bom. Chegam no carro, na fila do caixa, na hora de dormir — e sempre depois de a criança ter ouvido alguma coisa que ela não entendeu direito.

Como pegam o adulto de surpresa, a resposta sai no automático. E a resposta automática costuma ser uma de duas: encerrar o assunto ou despejar a preocupação inteira em cima da criança.

56%

dos pais que dizem conversar sobre educação financeira com os filhos admitem que nunca tiveram essa conversa com os próprios pais. Entre mulheres o número sobe para 65%, e nas classes D e E, para 64%.

Pesquisa Serasa sobre diálogo financeiro entre pais e filhos.

Metade dos pais está tentando ensinar uma língua que ninguém ensinou para eles. Não é falta de vontade — é falta de repertório.

Pergunta 1 — "A gente é rico?"

As duas respostas ruins: "a gente não tem dinheiro para nada" e "isso não é assunto de criança".

A primeira instala medo. A criança não tem como dimensionar a frase — ela ouve que a casa pode acabar. Muita ansiedade infantil sobre dinheiro nasce exatamente aí, de uma frase que o adulto disse cansado e esqueceu no minuto seguinte.

A segunda ensina que dinheiro é assunto proibido. E o que é proibido de perguntar aos oito anos continua sendo aos vinte e oito — só que aí a dúvida vira dívida.

O que funciona: tirar a pergunta do eixo rico/pobre e colocar no eixo escolha.

Uma resposta que serve para quase toda casa

"A gente tem o que precisa: comida, casa, escola, roupa. Não dá para ter tudo que a gente quer, então a gente escolhe. Toda família escolhe — as que têm mais dinheiro também. A diferença é o tamanho da escolha, não o fato de escolher."

Ela é verdadeira em praticamente qualquer faixa de renda, não assusta, e entrega o conceito que interessa: dinheiro é finito e por isso se escolhe. Que é, no fim, a única coisa que a criança precisa entender aos oito anos.

Se a casa estiver de fato passando aperto, a criança já percebeu — crianças percebem tensão muito antes de entender causa. Nesse caso, negar é pior: ela sente o clima e conclui que o problema é ela. O caminho é falar com verdade e com tamanho: "esse ano está mais apertado, a gente está cortando algumas coisas, e a nossa parte da casa está garantida".

Pergunta 2 — "Quanto você ganha?"

Essa é a que mais desconforta, e o desconforto tem uma razão prática legítima: criança pequena repete tudo, em qualquer lugar, com qualquer pessoa.

Dá para responder o que interessa sem entregar o número, e não é fugir da pergunta.

  • Até uns dez anos: troque valor por proporção. "O que eu ganho paga o aluguel, a comida, a escola de vocês, a luz, e sobra um pouco que a gente guarda." Ela quer entender como funciona, não quanto é.
  • Dos onze aos catorze: mostre a estrutura. Faça a conta do mês junto, com os pesos: o quanto vai para moradia, para comida, para transporte, para escola. Sem o valor total, se você não quiser dar. A proporção ensina mais que o número.
  • A partir dos quinze: vale abrir de verdade, se você se sentir à vontade. É a idade em que ele começa a montar as próprias expectativas sobre trabalho e salário — e a referência dele, se não for a sua, vai ser a internet.

Em todas as idades, uma frase ajuda: "esse número é da nossa casa, não é assunto para contar na escola". Criança respeita bem esse tipo de combinado quando ele é explicado, e não imposto.

Pergunta 3 — "Por que fulano tem e eu não posso ter?"

As respostas ruins: "porque o pai dele ganha mais" e "porque você não precisa disso".

A primeira ensina inveja e coloca o valor das pessoas numa escala de renda. A segunda invalida o desejo dela, que é real — e desejo invalidado não some, só para de ser contado para você.

O que funciona: trocar comparação por decisão.

"Cada família decide onde gasta. A gente decidiu gastar com outras coisas. E se isso é importante para você, dá para a gente montar um plano para você conseguir."

A frase que fecha bem essa conversa é a que abre uma porta: "quanto custa? quanto você tem? quanto falta?". Ela transforma inveja em meta em quinze segundos.

É a mesma lógica da carteira Guardar: em vez de negar o desejo, dar a ele um caminho. O detalhe está em Como ensinar a criança a esperar.

A regra que vale para as três

Não passe a sua ansiedade adiante.

É uma linha fina e ela vale a atenção: contar que existe orçamento e que a família escolhe é educação. Contar que você não está dormindo por causa da fatura é dividir com a criança um peso que ela não tem como carregar nem como resolver.

A criança precisa saber que dinheiro é finito, que decisão tem consequência e que na casa dela se fala sobre isso. Não precisa saber que a casa está com medo.

Por que essas conversas valem mais do que parecem

Existe uma escada silenciosa que se repete de geração em geração: o silêncio vira improviso, o improviso vira dívida, a dívida vira vergonha — e a vergonha fecha a próxima conversa.

Toda vez que uma pergunta dessas é respondida em vez de encerrada, essa escada perde um degrau.

Você não precisa ser bom com dinheiro para criar um filho que seja. Precisa não repetir o silêncio que te deixou sem repertório.

Fontes

  1. Pais conversam sobre dinheiro com seus filhos — pesquisa sobre educação financeira familiar — Serasa
  2. Apenas 39% dos pais brasileiros têm o hábito de dar mesada — Serasa

Instituto Crianças de Futuro Material produzido pela equipe do Instituto, com dados de fontes públicas identificadas ao final de cada texto. Guia de referência.

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