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Oito em cada dez famílias têm dívida. O que isso tem a ver com a mesa da sua casa

O endividamento bateu recorde em 2026 e os números viraram paisagem. Mas atrás deles existe um mecanismo que se repete de geração em geração — e ele passa dentro de casa.

ICF 15 · O retrato do Brasil · · 8 min de leitura

Todo mês sai uma manchete nova de recorde e o número deixa de significar alguma coisa. Vale parar em três deles, porque juntos eles contam uma história que separados não contam.

Primeiro número: quase toda família tem dívida

81,6%

das famílias brasileiras declararam ter algum tipo de dívida em junho de 2026 — o maior nível de toda a série histórica, que começou em 2010. A inadimplência, que mede quem está com contas atrasadas, ficou em 29,9%.

Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), CNC, junho de 2026.

E não é fenômeno de uma faixa de renda só. Entre as famílias com renda acima de dez salários mínimos, o endividamento subiu de 65,5% em 2025 para 69,3% em 2026.

Esse detalhe importa mais do que parece. Quando o endividamento cresce mais rápido justamente onde a renda é maior, fica difícil sustentar que a explicação inteira é falta de dinheiro.

83,3 milhões

de brasileiros estavam com o nome negativado em abril de 2026, o maior número da série histórica. Em dez anos, o crescimento foi de mais de 38%. Em média, o brasileiro tem cerca de 70% da renda comprometida.

Serasa Experian, 2026.

Segundo número: a escola não vem

17º lugar

é a posição do Brasil na avaliação internacional de letramento financeiro do PISA, com 416 pontos — 82 abaixo da média dos países da OCDE. Quase metade dos estudantes brasileiros de 15 anos ficou no nível mais baixo da escala ou abaixo dele.

PISA 2022, letramento financeiro. Inep / OCDE.

Houve melhora em relação a avaliações anteriores, e isso é honesto reconhecer. Mas o retrato do jovem de quinze anos que sai do sistema sem conseguir interpretar uma fatura, comparar duas ofertas de crédito ou montar um orçamento simples continua de pé.

A conta de ciências, o seu filho aprende na escola. A conta do banco, ele aprende com a vida — e a vida cobra caro pela aula.

Terceiro número: o que explica os outros dois

56%

dos pais que hoje conversam sobre dinheiro com os filhos nunca tiveram essa conversa com os próprios pais. Entre mulheres, 65%. Nas classes D e E, 64%. Ainda assim, oito em cada dez dizem que falam de educação financeira em casa.

Pesquisa Serasa sobre diálogo financeiro entre pais e filhos.

Esse é o número que costura os outros. Ele mostra uma geração inteira tentando ensinar uma coisa que ninguém ensinou para ela.

E aqui vale ser preciso, porque a leitura fácil é injusta: quando oito em cada dez dizem que ensinam, isso não é mentira. É boa fé. O pai está mesmo tentando. Só que vontade, sozinha, não vira aula — e conselho de mesa de jantar não vira hábito.

O mecanismo que se repete

Junte os três números e aparece uma sequência que a maioria das famílias brasileiras reconhece de cor:

  • Silêncio. Ninguém falou sobre dinheiro na casa em que a gente cresceu. Era assunto de adulto, e assunto tenso.
  • Improviso. Sem repertório, cada um resolve como dá. Aprende no susto, com o primeiro salário, com o primeiro cartão, com a primeira dívida.
  • Dívida. O improviso encontra crédito fácil e a conta chega.
  • Vergonha. E a vergonha é o que fecha a próxima conversa — inclusive com os próprios filhos.

O ciclo se fecha aí. A vergonha da geração anterior produziu o silêncio da seguinte, que produziu o improviso, que produziu a dívida. E cada volta recomeça no mesmo ponto.

Nada disso é sobre falta de inteligência ou de esforço. É sobre uma matéria que nunca foi dada — nem em casa, nem na escola.

O que dá para fazer com essa informação

Número de pesquisa não muda a vida de ninguém. O que muda é o que se faz com ele. E existe um lugar específico onde esse ciclo pode ser interrompido: a única geração cuja relação com dinheiro ainda não está formada.

Não exige que o adulto conserte a própria vida financeira primeiro. Essa é a parte que costuma travar o pai — a sensação de que não tem autoridade para ensinar uma coisa em que ele mesmo se atrapalha.

Não precisa ter. O que precisa é não repetir o silêncio: falar de dinheiro em casa, deixar a criança decidir com valores pequenos, e deixar ela errar enquanto o erro custa vinte reais.

Você não precisa ser bom com dinheiro para criar um filho que seja.

Por onde começar

Se a casa não tem o hábito de falar sobre isso, comece pela conversa — as três perguntas que toda criança faz e como respondê-las estão em "A gente é rico?" e outras duas perguntas.

Se a conversa já existe e falta prática, o passo é dar dinheiro com destino combinado, em Ganhar, Guardar, Gastar e Ajudar.

E se a dúvida for se ainda dá tempo, a resposta está em A janela dos 6 aos 14 anos.

Fontes

  1. Endividamento atinge 81,6% das famílias brasileiras em junho — Tribuna do Paraná / CNC, 2026
  2. Dívidas em recorde assombram as famílias brasileiras — Agência Senado, maio de 2026
  3. Inadimplência atinge 81,7 milhões e cresce 38% em 10 anos no Brasil — CNN Brasil / Serasa Experian, 2026
  4. Nota sobre o Brasil no PISA 2022 — letramento financeiro — Inep / Ministério da Educação
  5. Pais conversam sobre dinheiro com seus filhos — Serasa

Instituto Crianças de Futuro Material produzido pela equipe do Instituto, com dados de fontes públicas identificadas ao final de cada texto. Artigo de contexto — escrito a partir do noticiário de 31 de julho de 2026.

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