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Seu filho não está assistindo a um vídeo. Está assistindo a um comercial de 40 minutos

O intervalo comercial acabou. Hoje a propaganda é o próprio conteúdo, feita por alguém que a criança considera amigo — e é exatamente isso que desliga a defesa dela.

ICF 06 · Telas e dinheiro · · 7 min de leitura

Quando a gente era criança, a propaganda tinha hora marcada. O desenho parava, entrava o comercial, e mesmo aos seis anos dava para perceber a costura. Aquilo era outra coisa, com outra música e outro jeito de falar.

Essa costura sumiu. E a criança perdeu junto o sinal que ela usava para se defender.

81%

dos usuários de internet entre 11 e 17 anos foram expostos a divulgação de produtos e marcas no ambiente online. Entre os de 9 a 17 anos, 59% assistiram a alguém desembalando produtos e 56% viram influenciadores exibindo presentes recebidos de marcas.

TIC Kids Online Brasil, Cetic.br/NIC.br.

Por que o vídeo funciona onde o comercial não funcionava

Existe uma diferença técnica entre as duas coisas, e ela explica tudo.

O comercial era um estranho tentando vender. A defesa contra estranho a criança tem de fábrica — ela desconfia, ela sai da sala, ela sabe que aquilo quer alguma coisa dela.

O vídeo é feito por alguém que ela acompanha há meses. Que ela vê acordar, brincar, brigar com o irmão, comemorar aniversário. O cérebro dela processa essa pessoa como alguém próximo — e a defesa contra próximo simplesmente não existe.

Quando a publicidade deixa de ser o intervalo e passa a ser o conteúdo, a criança não tem onde acionar o filtro. Não é que ela ignore o filtro: é que não há momento em que ele ligue.

E quando quem apresenta é outra criança, some também a última pista. Não é adulto vendendo para criança — é igual mostrando para igual. A pesquisa da área é direta ao apontar isso como o que anula a barreira crítica.

O que o unboxing ensina, mesmo sem tentar

Um vídeo de desembalar produto não vende um brinquedo. Ele ensina uma sequência, e a sequência é o que gruda:

  • A embalagem chega. Não existe a parte em que alguém trabalhou, juntou, esperou ou escolheu entre uma coisa e outra. O objeto simplesmente aparece.
  • A alegria está na abertura, não no uso. O pico do vídeo é o momento de rasgar o plástico — e é por isso que a criança perde o interesse pelo brinquedo dois dias depois de ganhar. Ela não queria o brinquedo. Queria a cena.
  • Sempre tem o próximo. O vídeo termina anunciando o que vem no próximo. Nunca existe um ponto em que é suficiente.

Repare que nada disso é sobre um produto específico. É uma aula, repetida centenas de vezes, sobre como se sente prazer: comprando, abrindo, e comprando de novo.

O que não adianta fazer

Proibir o canal. Primeiro porque ele assiste na casa do amigo. Segundo porque o problema não está naquele canal — está no formato, que é o formato de tudo agora.

Falar mal do criador de conteúdo também não funciona, e ainda custa caro: para a criança, você acabou de atacar alguém de quem ela gosta. A partir daí ela para de te contar o que assiste, e você perde o único acesso que tinha.

O que funciona: transformar em jogo de detetive

Criança adora descobrir truque. É o mesmo prazer da mágica revelada. Em vez de proibir o vídeo, assista junto e ensine a enxergar o mecanismo.

O jogo do "quem pagou por isso?"

Funciona a partir dos seis anos e vira brincadeira em duas semanas. As perguntas são sempre as mesmas:

  1. "Quem deu esse brinquedo para ele?" Quase sempre a resposta está escrita em algum canto da tela, em letra pequena, ou dita rápido no começo. Achar o aviso vira parte do jogo.
  2. "Ele comprou ou ganhou?" A criança percebe sozinha que a pessoa do vídeo nunca paga por nada. E que ela, na vida real, paga.
  3. "O que ele quer que a gente faça depois de assistir?" Essa é a pergunta que ensina intenção. Todo conteúdo quer alguma coisa: que você compre, que você assista mais, que você peça para alguém comprar.
  4. "Ele ainda está usando o brinquedo do vídeo passado?" Nunca está. E essa é a aula inteira sobre durabilidade do desejo, sem uma palavra de sermão.

Depois de um mês fazendo isso, a criança começa a apontar sozinha. É o objetivo: você não está filtrando o conteúdo dela, está instalando o filtro dentro dela.

A regra que resolve o "eu quero" no supermercado

Quando o pedido vier — e ele vem —, a resposta mais útil não é sim nem não. É transformar o desejo em decisão.

"Quanto custa? Quanto você tem? Quanto falta?" Três perguntas que tiram você do papel de porteiro e colocam a criança no papel de quem decide. Se ela decidir gastar tudo naquilo e se arrepender depois, ótimo: aprendeu com R$ 40, na idade em que R$ 40 é o valor máximo do erro.

Enquanto o dinheiro for seu, todo pedido é uma briga. No momento em que uma parte do dinheiro é dele, todo pedido vira uma conta.

É essa virada que a criança treina em Ganhar, Guardar, Gastar e Ajudar — e é a razão de a mesada existir, quando ela é bem feita.

Fontes

  1. TIC Kids Online Brasil — publicidade e consumo entre crianças e adolescentes — Cetic.br / NIC.br
  2. Meninas e publicidade infantil: entre riscos e novas regras — ANDI — Comunicação e Direitos, maio de 2026
  3. 'Produtinho': marcas usam brechas para exibir crianças em publis — Repórter Brasil

Instituto Crianças de Futuro Material produzido pela equipe do Instituto, com dados de fontes públicas identificadas ao final de cada texto. Guia de referência.

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