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Um em cada cinco jovens de 17 anos já apostou. E é ilegal

A aposta é proibida para menor de idade e mesmo assim chegou. O caminho até ela começa muito antes — e passa por lugares que a sua casa não vê como aposta.

ICF 05 · Telas e dinheiro · · 8 min de leitura

Apostar é proibido para quem tem menos de 18 anos no Brasil. Publicidade de aposta dirigida a criança e adolescente é considerada abusiva. As duas coisas são verdade — e não impediram nada.

11%

dos brasileiros de 10 a 17 anos fizeram aposta online em 2025. Entre os de 17 anos, o número sobe para 20% — um em cada cinco. Entre meninas de 14 e 15 anos, 14% tiveram acesso a plataformas de aposta.

Pesquisa Ipsos, divulgada em 2026.

E a exposição é muito maior que a participação. Mais da metade dos usuários de internet entre 11 e 17 anos viu, no último ano, vídeos ou imagens de pessoas promovendo jogos de aposta.

Metade viu. Um em cada dez entrou. A distância entre ver e entrar é bem menor do que qualquer pai imagina.

Por onde isso entra, se é proibido

Não entra por um anúncio dizendo "aposte aqui". Entra por três portas que não parecem porta.

  • Pelo criador de conteúdo que ele assiste todo dia. Não é comercial: é o cara mostrando o próprio ganho, a tela do saque, a comemoração. Vem embrulhado em entretenimento, no meio do conteúdo que ele já consome por outro motivo.
  • Pelo grupo. A pesquisa aponta a curiosidade como principal motivação, citada por 41% dos jovens. Curiosidade, nessa idade, quase nunca é solitária — ela vem de alguém da turma que já entrou e contou.
  • Pela conta de outra pessoa. A verificação de idade barra o cadastro do adolescente, não o uso da conta de um primo mais velho, de um amigo de 18 ou de um adulto da própria casa.

Há ainda uma quarta porta, e ela é a que menos parece: o adolescente que passou anos comprando caixa fechada em jogo já treinou exatamente o comportamento que a aposta explora. Pagar por um resultado aleatório, torcer, perder, tentar de novo. Muda a plataforma, não o mecanismo.

O que faz a aposta ser sedutora nessa idade

Não é ganância. É onde o cérebro dele está.

A adolescência é o período em que o sistema de recompensa está no auge e o sistema de freio ainda está em obra. É a combinação que faz o mesmo jovem ser capaz de estudar meses para uma prova e, na mesma semana, apostar o dinheiro do mês num palpite de dez minutos.

Some a isso o que a aposta promete: dinheiro rápido, sem depender de adulto, sem esperar. Para quem ainda não tem renda e está justamente na fase de querer autonomia, é uma oferta desenhada no alvo.

Ele não está apostando por dinheiro. Está apostando por autonomia — e a aposta é o único lugar que promete entregar isso hoje.

O que não funciona

  • Proibir sem explicar. Aos quinze anos, a proibição sem argumento é convite. Ele vai testar, e vai testar escondido.
  • A palestra sobre vício. Adolescente não se reconhece em história de dependente. Ele se reconhece em conta que não fecha.
  • Vigiar o celular. Funciona por duas semanas e custa a confiança que você vai precisar quando o problema for de verdade.
  • Falar só quando já aconteceu. Depois que ele perdeu dinheiro, entra a vergonha — e a vergonha fecha a conversa antes de ela começar.

O que funciona: mostrar a matemática, não o perigo

Adolescente responde muito melhor a "você está sendo feito de trouxa" do que a "isso te faz mal". Uma frase mexe com a inteligência dele; a outra, com a obediência. E nessa idade a inteligência ganha da obediência sempre.

Três perguntas que abrem a conversa sem sermão

  1. "Você já viu alguém postar a perda?" Ele vai dizer que não. Nunca viu. Só existe post de ganho — e é por isso que a conta que ele faz de cabeça sobre a chance de ganhar está errada.
  2. "Se a casa perdesse, ela existiria?" A empresa tem prédio, patrocina time, paga o criador que ele assiste. Esse dinheiro sai de algum lugar, e o lugar é a soma de quem jogou. A margem não é opinião: é o modelo de negócio.
  3. "Quanto custa a hora do seu tempo?" Se ele já ganha algum dinheiro, compare: quanto tempo trabalhando dá o valor que ele apostaria em cinco minutos. Essa conta cala mais que qualquer discurso.

Nenhuma das três é sobre proibir. As três são sobre enxergar o mecanismo. É isso que sobra quando você não estiver por perto.

Se já aconteceu

Primeiro: a reação dele à sua reação vai definir se ele conta ou esconde da próxima vez. Vale segurar a explosão pelo mesmo motivo de sempre — não porque a raiva seja injusta, mas porque ela custa caro no que vem depois.

  1. Descubra a extensão real, sem interrogatório. Quanto entrou, quanto saiu, se tem dívida com alguém da turma.
  2. Verifique se há dinheiro emprestado envolvido. É o sinal mais sério da lista, e o mais escondido.
  3. Corte o acesso ao meio de pagamento, com ele presente e sabendo o motivo. Feito às escondidas, vira jogo de gato e rato.
  4. Se houver sinal de perda de controle — mentira recorrente, dívida crescente, queda no rendimento escolar, isolamento — procure ajuda profissional. Aposta compulsiva é quadro de saúde, não fraqueza de caráter.

A prevenção que começa aos sete anos

A conversa sobre aposta aos quinze é remediação. A prevenção acontece muito antes, e não fala de aposta em nenhum momento.

Uma criança que aprendeu a esperar por um objetivo, que já viu o próprio dinheiro acabar por uma decisão ruim e que sabe de onde vem cada real que ela tem, chega aos quinze com uma defesa que nenhuma proibição dá: ela reconhece a promessa fácil quando vê.

Esse treino tem um nome em casa. Está em Ganhar, Guardar, Gastar e Ajudar e começa com valores pequenos, cedo.

Fontes

  1. Pesquisa identifica que 11% dos menores de idade realizaram apostas online no Brasil — iGaming Business Brasil, 2026
  2. Dinheiro rápido e pertencimento: o que leva adolescentes às bets? — Lunetas, 2026
  3. TIC Kids Online Brasil 2025 — exposição a conteúdo de apostas — Cetic.br / NIC.br

Instituto Crianças de Futuro Material produzido pela equipe do Instituto, com dados de fontes públicas identificadas ao final de cada texto. Artigo de contexto — escrito a partir do noticiário de 31 de julho de 2026.

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